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  • Oct 10, 2020

Não é segredo que uma das coisas que mais gosto de fazer dentro desta profissão maravilhosa que é a música é tocar as canções dos outros. Não há nenhum músico na terra que tenha começado a tocar um instrumento sem primeiro aprender com aqueles que o ensinaram a ouvir. Lembro-me que quando peguei na guitarra com 16 ou 17 anos, queria aprender as canções todas dos Pixies e dos Prefab Sprout. No entanto, os Prefab Sprout eram muito complicados para um iniciante, e foi por isso que me dediquei a aprender a tocar as canções punk-rock dos Pixies na minha guitarra EKO. Como não soava a nada do que eu pretendia, tirei-lhe as cordas de nylon e substituí-as por cordas de aço, o que acabou destruir a guitarra no espaço de 2 anos. Nunca usei uma palheta porque nunca ninguém me disse que era suposto. Ainda hoje não sei usar uma.


Tocar as músicas dos outros é um prazer para qualquer músico. É como voltar onde já se foi feliz sem ter ninguém por cima do nosso ombro a chatear-nos com clichés derrotistas. Há quem diga que as versões geralmente destroem os originais, mas eu acho que não há nenhum músico que não se sinta lisonjeado por ouvir as suas canções nas vozes e instrumentos de outros. Eu já fiz centenas de versões ao vivo e já gravei algumas em disco, mas é sempre um prazer quando me convidam para voltar a fazê-lo. Foi o que aconteceu na última semana, por duas vezes.


Primeiro aconteceu no programa da manhã da Rádio M80 onde cantei uma das mais impressionantes vozes dos anos 80, um clássico absoluto que recomendo a toda a gente. Foi também uma das canções que aprendi a tocar quando comecei a aprender guitarra e foi com um enorme prazer que voltei a ela. A canção? "Baby, Can I Hold You" de Tracy Chapman.


O original:











A versão:


Dias mais tarde, fui convidado para surpreender a equipa das manhãs da Rádio Comercial no Dia Mundial da Música. A ideia era cantar uma canção para que a equipa adivinhasse quem estava no estúdio a fazê-lo. Escolhi uma canção que ouvi vezes sem conta há 2 verões atrás e que fugia muito à ideia de uma versão acústica: "Something Just Like This" dos Chainsmokers com os Coldplay.


O original:











A versão:


Apesar de adorar fazer versões, raramente memorizo os acordes das canções dos outros. Em reuniões de amigos, raramente pego na guitarra porque, na realidade, só sei tocar as minhas canções. E não todas, porque são muitas. E como a última coisa que quero é acabar a cantar as minhas canções numa festa de amigos, escondo as guitarras todas antes de alguém entrar em casa. Prefiro o Karaoke, essa arte popular que nunca desilude ninguém.

  • Aug 31, 2020

(gravação de "Sextos Sentidos" com os Silence 4)


Quando conheci pessoalmente o Sérgio Godinho em 1997 estava nervoso. MUITO nervoso. Era o meu músico português preferido e tinha perdido a conta às horas que tinha passado a ouvir as suas canções e a ler as suas letras. Sabia muitas de cor e era uma espécie de herói pessoal que agora se materializava numa pessoa à minha frente, a dizer o meu nome e a tratar-me por tu. Convidámo-lo para escrever uma letra para os Silence 4, uma canção do nosso guitarrista/baixista Rui Costa e que acabou por se chamar "Sextos Sentidos". Como se pode calcular, ficámos extasiados com a ideia de um dos maiores nomes da música portuguesa aceitar trabalhar connosco, uma banda completamente desconhecida que cantava maioritariamente em inglês. O Sérgio juntou-se a nós num momento em que os Silence 4 eram uma das bandas mais pequenas e singelas do nosso país.


Sentados no sofá da casa dele, mostrou-me a letra para a canção e cantámos pela primeira vez juntos mesmo ali, eu de guitarra e o Sérgio a percorrer as palavras. É um momento que nunca esquecerei. Aquilo que eu não sabia é que nascia ali uma colaboração que acabaríamos por repetir de diversas formas ao longo dos anos.


(nos ensaios para o concerto ao vivo no Pavilhão Atlântico, 1998)



Em 2003, eu e o Rui Costa acabámos por colaborar de novo com ele no tema "A Balada da Rita" para o disco "Irmão do Meio", um dos nossos temas favoritos e que já tínhamos tocado em palco.





Em 2004 cantei com ele uma das canções que mais ouvi do seu disco "Escritor de Canções". "Um tempo que passou", com letra de Chico Buarque e música do Sérgio. Quase que me belisquei antes de entrar no palco, quantas vezes tinha cantado aquela canção na sala dos meus pais? Tinha tanto de irreal como de maravilhoso.


Cruzámo-nos várias vezes, em palco e fora dele ao longo dos anos e em 2018 tive a oportunidade de escrever uma canção para ele. Senti os mesmos nervos do primeiro dia, não queria falhar ao mestre. O resultado é "Grão da mesma mó", um dos momentos que mais me enche de orgulho nesta minha cruzada musical.


O Sérgio é uma inspiração todos os dias. É um músico inquieto, um poeta que conforta e incomoda, um rebelde com e sem causa. Não alinha com o quadro geral mas é impossível imaginar o quadro sem ele. Hoje faz 75 anos e tem mais 300 pela frente. Quando eu for grande, quero ser como ele. Ou o mais perto possível, porque como ele não há mais ninguém. Parabéns Sérgio, és o maior!



  • Aug 1, 2020

(foto de Filipe Ferreira)


Já o disse diversas vezes: não sei bem de onde vêm as canções. Às vezes gostava de saber, talvez fosse mais simples ir a esse sítio apanhá-las quando me apetecesse, mas é possível que o mistério delas se desvanecesse. Já fiz muitas canções e nem sempre me lembro da circunstância que as fez aparecer, mas no caso do tema "É-me Igual", é um momento muito claro na minha memória. Os acordes apareceram por acaso, estava a experimentar sequências simples na guitarra e esta apareceu. De repente, foi como se alguém estivesse a segredar-me estas palavras ao ouvido e, em pouco mais de meia-hora, a canção estava à minha frente.


"É-me igual

E o que me importa

Atiçar o fogo se o que me conforta é o teu calor

Quando é que vens?

O que me importa se na tv

Se lança o terror quando alguém prevê uma guerra mundial

É-me igual"


O tema fala de solidão e abandono, uma espécie de transe que faz desaparecer tudo à sua volta. Quando o escrevi não era esse o meu estado de espírito, não me parece que seja possível construir algo quando se está trancado dentro de um mundo interior, mas acredito que toda a gente já se sentiu assim pelo menos uma vez na vida.


Nunca sei bem o que fazer com este tipo de canções, são muito sombrias e enevoadas por um certo espírito derrotista que não me é muito próprio. Mas até um optimista por natureza tem as suas quedas e talvez pareçam mais duras por contraste com as partes mais luminosas e frequentes da minha vida. Acabo sempre por pensar que canções como esta encontrarão alguém do outro lado que se possa identificar com ela e, de alguma maneira, que possam quebrar por um momento essa ideia de solidão.


"É-me igual

Sem o teu regresso

Tudo me queima, nada me aquece no bem e no mal

Diz-me que vens

Viro canais, vejo sem ver

As coisas banais, o tempo a correr nos telejornais

É-me igual"


Lancei-a num lado B em vinil num dos singles de "Futuro Eu", talvez para afastar toda esta melancolia do disco, mas acabou por ser uma das minhas favoritas dessa altura. Continuo a gostar dela como da primeira vez que apareceu nas minhas mãos. Que a solidão e melancolia venha sempre acompanhada de acordes, sempre se transforma em algo que nos liga ao mundo inteiro.


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